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A massa de ressentidos e a castração


Os últimos levantamentos sobre a violência contra a mulher no Brasil, das agressões ao feminicídio, pintam um cenário tenebroso: há uma clara tendência de aumento, observável não só pelos dados colhidos, mas também pelo aumento sensível do discurso misógino na internet e no cotidiano. O que hoje parece sofrer uma metástase pode ser apontado em diversas fontes, começando com discursos marginais que hoje fazem-se ouvir mais corriqueiramente. Onde antes havia apenas fóruns escondidos à meia-luz da internet, hoje se consolida como um discurso vendável que se empacota em cursos, que preda sobre um sentimento que se espalha especialmente entre os homens: o ressentimento.


            Considerando os primeiros levantamentos freudianos, muitos poderiam achar caricata a produção fantasística do início do século passado, onde a ausência de poder, a incompletude e impotência eram lidos de forma quase bijetiva na ausência de genitália masculina. Os homens sofreriam na constante paranoia de que algo lhes seria arrancado na carne – a própria castração –, enquanto as mulheres sofreriam da inveja daqueles que detêm algo que lhes falta. É necessário relembrar Lacan, em seu Seminário 10 sobre a Angústia, quando diz que essa mesma castração é simbólica, que o trauma de sua violência surge justamente da fantasia de que é de fato o órgão masculino a deter certo poder. O que pode ser entendido a priori como uma literalidade ingênua, na verdade, aponta em nossa anatomia uma condição social incontornável: o mundo tem como sujeito apenas o homem, relegando os restantes ao lugar da alteridade, lugar daquilo que não é homem. Ocorre que, a contragosto daqueles que antes gozavam de posição de supremacia, muitas sociedades começaram a ceder espaço de sujeito às mulheres, graças à luta política de mulheres organizadas. A criação da psicanálise só foi possível nesse contexto político, ao rejeitar a ideia de que os sintomas histéricos constituíam engodo e que eram, na verdade, um grito que saía pelos poros do corpo feminino.



            O efeito colateral da progressiva conquista deste espaço, porém, é a massa de ressentidos que resta após a redistribuição do poder. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud aponta o laço libidinal de identificação que une os indivíduos ao redor de um líder. Uma figura é eleita como porta-voz e procuradora da vontade da massa e, logo, o ressentimento ganha voz. Muito antes da eleição de Jair Bolsonaro, quando este ainda era um deputado do baixo clero, este foi alçado à notoriedade fazendo inúmeras ofensas e agressões verbais às mulheres. Disse, entre outras coisas, não violar uma delas porque ela “não merecia”, chamou repórteres de imbecis, afirmou que deveriam receber menor salário, pois engravidam e caracterizou o nascimento de sua única filha mulher como uma “fraquejada”. Seu claro ressentimento contra as mulheres, frequentemente ecoado por seus apoiadores, é pareado com apelos transparentes a uma potência que, obviamente, não possui. Em evento público, ao lado de sua esposa, puxou um constrangedor coro, repetindo algumas vezes a palavra “imbrochável”. A cena, para qualquer um que não participe dela, é cômica não somente por seu apelo ao absurdo, mas porque revela justamente aquilo que o enunciante não posssui. Um senhor de idade que constantemente fala de seu próprio (suposto) vigor viril está, na realidade, afirmando aquilo que gostaria de ter, pedindo ao público que confirme sua fantasia – que repitam que ele é, de fato, “imbrochável”. O público que repete o coro participa da cena, mantendo a farsa tanto para o líder quanto para si, na esperança de que impotentes, convertam-se em onipotentes, ainda que por meio do líder eleito.


            Se a psicanálise é frequentemente feita de caricatura de si mesma em sua suposta fixação com a sexualidade, é necessário que se avise aos sujeitos dos quais ela fala para que abandonem, eles próprios, sua fixação com os símbolos que insistem em retornar, feito zumbis. Ou, quem sabe, possamos entender que a insistência destes elementos e seu retorno ressentido em nossa cultura indiquem um sintoma de uma ordem que insiste em não morrer, e que ainda carece de ser inteiramente esmagada em sua perversidade.

 
 
 

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Forma Nula é um laboratório de Psicanálise, voltado à epistemologia, ontologia e filosofia da linguagem.

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