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Desejo feminino: o ponto fora da curva da misoginia


Nos últimos dias acompanhamos o “Calvo do Campari”, conhecido por disseminar conteúdo Red Pill nas redes sociais, sendo preso por violência doméstica e, após, seu posicionamento sobre o que havia acontecido. Posicionamento interessante porque demarca algo que já havia ficado claro sobre o discurso Red Pill: que esse nada mais é do que a vulgaridade misógina disseminada nas redes sociais, ou seja, a ambivalência masculina, marca da impossibilidade de lidar com a mulher quando a mesma sai da posição de objeto na fantasia masculina.


No posicionamento, a primeira fala curiosa foi “ela demonstrava ser apaixonada por mim, um ponto praticamente fora da curva”, seja lá a curvatura milimetricamente calculada de como se pode demonstrar apaixonamento por alguém. Depois, diz: “no entanto o relacionamento tinha um outro lado, um lado um pouco diferente, o sexo era muito intenso, muito selvagem e muito acalorado. Num nível que praticamente não dá pra explicar. [...] Eu sempre recebia texto de mensagem extremamente picante e de cunho sexual por parte dela. Quantidade absurda. Assim como a iniciação dos atos sexuais que partiam mais da parte dela do que da minha parte”


Daí vem a pergunta: Por que a demonstração do apaixonamento, do desejo sexual e a iniciação de momentos íntimos pela mulher soa tão absurda - ou amedrontadora - para alguns homens? Parece que a mulher na posição de sujeito - que deseja, que demanda, que se impõe - segue esburacando a fantasia neurótica masculina. Mas por que é tão importante para essa fantasia que a mulher permaneça apassivada, reduzida a dimensão objetal?



Se o desejo do homem é o desejo do Outro, e se através do Outro, o homem pode se orientar em relação ao seu próprio desejo, que lugar é esse de ameaça que emerge quando uma mulher aparece como sujeito desejante e impõe ao homem a interrogação sobre seu lugar como quem deseja? Se partirmos do fato que a saída da posição passiva - constitutiva da fantasia masculina - implica a passagem de objeto para sujeito, articulando todas as representações prévias do homem em relação a sua fantasia, como podemos apreender o ódio e o ressentimento dos homens em relação ao espaço público e a liberdade sexual feminina?


Parece então uma dinâmica em que a mulher até pode ser sujeito, mas dentro dessa curva permitida. Queira só o que eu quiser, apaixone-se apenas pelas minhas métricas:  “Sempre foi bastante carinhosa, sempre me fazia favores. [...] ela falava frequentemente em casar, tá? [...] Ela também tinha intenção em ter filhos.” Percebemos também a antiga ambivalência masculina já apontada por Freud em relação ao investimento amoroso: “no entanto o relacionamento tinha um outro lado, [...] eu sempre recebia texto de mensagem extremamente picante e de cunho sexual por parte dela.”, frente a um objeto que se divide entre o amável, adequado às fantasias amorosas do sujeito e um objeto erótico, inadequado ao tabu do incesto, que ameaça o encontro traumático com a sexualidade feminina, com a sexualidade do Outro materno. Portanto,  para que esse homem não se sinta gozado pelo Outro, deve-se constituir uma fantasia que preserve a pureza do feminino, seu apassivamento enquanto objeto cortejável, onde a imagem de delicadeza e pureza podem povoar o imaginário masculino e distanciar o encontro traumático edipiano e garantir uma relação com sua alteridade que sempre o garanta enquanto sujeito, figura ativa que impõe sua vontade sobre o mundo.


Nessa posição subjetiva um tanto quanto obsessiva de precisar manter tudo sob controle, tenta fingir que o Outro não existe para se defender do desejo desse mesmo Outro, e se desespera, reage com ressentimento, com violência quando a mulher não apenas se recusa a encarnar o papel de um simples objeto, mas sobretudo, quando a mesma se impõe enquanto sujeito, abrindo um espaço para a ameaça da consistência simbólica ao qual essa posição obsessiva tanto se protege, quando percebe que não é apenas ele que deseja.

Nesse sentido, não podemos ignorar que quanto mais as mulheres conquistam a posição ativa de sujeito, mais os homens se ressentem, mais o discurso misógino é abraçado, e com isso, escancara-se a denúncia da fragilidade dessa masculinidade que precisa tanto de um Outro que haja como se não existisse e, além disso, denuncia o fardo trabalho masculino de dar contornos simbólicos a sua própria falta, marca de um sofrimento e de uma angústia frente a impossível tentativa de velar sua importância frente a um mundo que não se dobra sob sua vontade.


O aumento monstruoso dos casos de violência doméstica e do feminicídio de forma desavergonhada pelos que cometem aponta a tamanha vulnerabilidade em lidar com seu  Outro, esse lugar obscuro que ameaça e garante simultaneamente os contornos simbólicos de nossas certezas sobre nós mesmos e que nos interroga se seremos capazes de garanti-las em sua presença. Essas são as dimensões simbólicas que precisam ser ignoradas por aquele que se identifica com o “falogocentrístimo” masculino e que se apega a uma injunção superegoica que exige a ele a inescrupulosidade de manter a masculinidade intacta.

 
 
 

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Forma Nula é um laboratório de Psicanálise, voltado à epistemologia, ontologia e filosofia da linguagem.

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